Cultura Japonesa

Crônicas Nikkeis: Itadakimasu 2! Um novo gostinho da Cultura Nikkei

A influência da culinária japonesa no Brasil – ontem, hoje e amanhã.

Os imigrantes japoneses vieram para o Brasil no século passado para trabalhar nas lavouras de café com o sonho de enriquecer e depois voltar para o Japão. Diante das dificuldades encontradas e, percebendo que não seria possível concretizar este sonho iniciaram o processo de integração com os brasileiros (gaijin).

Aos poucos foram se adaptando aos costumes, culinária, crenças religiosas e estilo de vida do povo daqui. Mas no convívio familiar preservavam a sua cultura, principalmente quando as gerações mais novas conviviam com  pessoas idosas preocupadas em repassar valores, costumes, idioma e também a culinária do Japão.

Os hábitos alimentares trazidos pelos primeiros imigrantes á base de shirogohan, arroz branco preparado sem nenhum tempero, misoshiro feito com  pasta de soja fermentada, moti  feito com arroz socado, natô, feito com grãos de soja fermentada, tsukemono, conserva preparado com gengibre (shoga), cenoura (ninjin), acelga (hakussai) e outros legumes e verduras, sashimi, à base de peixe crú,  eram considerados exóticos, esquisitos e pouco apreciado pelos brasileiros.

Hoje, a culinária japonesa está em alta no Brasil; com algumas adaptações ao gosto ocidental ela vem ganhando tradição e prestígio, por ser considerada uma opção saudável associando a qualidade e a expectativa de vida dos japoneses aos alimentos consumidos.  É possível saboreá-la nos restaurantes típicos japoneses ou em fast foods, food trucks, churrascarias e outros espaços de gastronomia em qualquer região do país.

Em Londrina, no norte do Paraná, os restaurantes japoneses tornaram-se um sucesso entre nikkeis e também não nikkeis, que conseguem manejar com incrível desenvoltura os antes exóticos pauzinhos que substituem o garfo – hashi para comer sushi, sashimi, misoshiro, tempurá, shirogohan além das saladas com temperos a base de shoyu e outros ingredientes típicos.

A vinda dos imigrantes permitiu a incorporação de uma variedade de frutas, verduras e legumes, como caqui, maçã, pera, acelga, espinafre japonês, brotos de feijão, broto de bambu, rabanete, abóbora cabotiá entre uma diversidade de produtos enriquecendo a culinária nipo-brasileira.

Fazemos parte do Grupo Hikari de Londrina que reúne nikkeis e não nikkeis de ambos os sexos para treinar bon odori semanalmente na cidade de Londrina.   Além dos treinos, o grupo costuma participar das festividades do  bonenkai  – confraternização de final de ano, shinenkai – confraternização de início do ano, e tandyokai,  para comemorar os aniversários dos participantes do grupo.

Nestes encontros, cada integrante costuma preparar uma iguaria de doce ou salgado e as compartilha com todos e com isso todos tem a oportunidade de provar vários tipos de comida.  Largamente adotada pela comunidade nipo-brasileira, essa tradição aparentemente simples, conhecida como  motiyori,  é  uma das  responsáveis pela preservação de diversos aspectos da cultura japonesa, incluindo o   costume de fazer o brinde  com as palavras “banzai”e o uso das expressões:itadakimasu” e “gochisoosama”  antes  e após as pessoas se servirem do alimento.

É a oportunidade de saborear o nishimê, tsukemono , sushi, hijiki gohan, harussame, mandiu, moti, kanten e outros pratos da culinária japonesa e também os preparados com carne bovina,  peixes e  frangos, massas, legumes e verduras  em uma  variedade de sabores, típicos da culinária brasileira.

O costume do motiyori, além de não pesar no bolso dos organizadores nem dos participantes, é um grande exemplo de solidariedade, promovendo a união e uma maior integração entre as pessoas. Além disso, provando-se da comida preparada pelo amigo, vizinho ou parente em uma festa dessas, o clima de intimidade se intensifica; é como se o salão fosse casa de todos – sem contar o prazer de poder apreciar uma boa comida preparada em casa.

Não chegamos a contar nestes encontros a proporção entre pratos da culinária japonesa e brasileira, porém constatamos que o grupo ainda preserva  muitos dos hábitos alimentares dos pais e avós que vieram para o Brasil no século passado.

Por conta da inserção da mulher no mercado de trabalho e talvez o pouco interesse pela atividade, está diminuindo o número de pessoas que produzem artesanalmente ingredientes como tofu, missô, natô, tsukemono e moti em casa. As famílias preferem frequentar os restaurantes especializados ou então adquirir estes produtos prontos em mercados, mercearias ou feiras.

Trocar receitas de comida é um costume comum entre os participantes do nosso grupo, daí surgiu a ideia da  publicação de um livro de receitas.  Como a maioria das pessoas não tem muito tempo para ficar na cozinha optou-se pela seleção de pratos fáceis de preparar para serem consumidos no dia a dia e que fossem econômicas. Também foram incluídas outras, mais elaboradas, que costumam ser servidas nos eventos festivos ou quando nos reunimos para realizar trabalhos em grupo com a finalidade de filantropia.

Todos do grupo foram convidados para colaborar com pelo menos uma receita de doce ou de salgado, sem que necessariamente fizesse parte da culinária japonesa. O livro que está em fase de edição contém várias receitas que incluem o shoyu, saque, hondashi, gobu-algas,su-vinagre, shoga-gengibre, goma-gergelim, aji no moto como ingredientes.  Este fato serviu para demonstrar que as bases da culinária japonesa estão presentes no grupo.

Segundo um estudioso da área, na gastronomia, uma cultura não entra em contato com outra sem se transformar… O resultado disso são as opções de sushis preparados com cream cheese, maionese, morango, abacate ou manga, o sushi frito, croquete á base de okara – resíduo do queijo de soja, harumaki recheado com goiabada e queijo, pastel com  takenoko – broto de bambu,  o tofu – queijo de soja,  temperado com azeite e pimenta do reino, enfim uma infinidade de pratos em que se misturam ingredientes da culinária japonesa com a brasileira.

Pratos como o “Philadelphia roll” produzidos com salmão, abacate, manga e cream cheese podem agradar os brasileiros, porém dificilmente será  encontrado em um restaurante típico japonês.

Os japoneses costumam consumir nas refeições, o umeboshi, uma conserva semelhante à ameixa. Como no Brasil, no período anterior e durante a 2ª guerra mundial os imigrantes não tinham condições de importar este produto, encontraram no fruto do hibisco de coloração avermelhada uma alternativa de conserva para substituir o produto original. O umê de coloração avermelhada é largamente consumido hoje entre os descendentes no Brasil.

Na medida em que o tempo vai passando, os hábitos alimentares dos filhos, netos e bisnetos dos participantes do Hikari também vão se transformando como resultado da integração das duas culturas.

Com isso, é natural que as gerações mais novas nascidas no Brasil gostem de arroz com feijão, bife, batatinha frita e salada, feijoada, churrasco ou pizza, característicos da culinária local, mas é provável que parte desta geração prefira o arroz branco – shirogohan, feito na panela elétrica ao tradicional arroz temperado, o yakisakaná, peixe grelhado ao tradicional bife, o misoshiro, substituindo a tradicional sopa brasileira, o sashimi, a base de peixe cru, o tamagoyaki, omelete tipo japonês e outras opções.

Durante os treinos do  bon odori é servido ban-chá e cafezinho no intervalo da aula;  enquanto alguns preferem o primeiro  servido sem açúcar, outros, não abrem mão  do tradicional café brasileiro,

A culinária japonesa está se transformando para se adaptar ao paladar dos brasileiros, porém a nosso ver, as raízes devem ser preservadas pelos nikkeis evitando que ela seja praticada fora das características originais de utilização, manuseio e conservação dos produtos.

Alba Shioco Hino – Paranaense, graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina UEL e em Pedagogia pelo Centro de Estudos Superiores de Londrina CESULON, professora aposentada da rede municipal e estadual de ensino. Bolsista do Governo Japonês Ministério de Educação e Cultura na Universidade de Hiroshima entre 1987 a 1989. Faz parte da equipe do Grupo Hikari de Londrina, que tem como objetivo manter viva a cultura japonesa, sendo a responsável pela edição das fotos do site www.hikarilondrina.com.br.

Nilza Matiko Iwakura Okano  – Natural de Arapongas, Paraná, graduada em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Londrina – UEL. Atualmente faz parte da monitoria do Projeto “Oficina de TV para a Terceira Idade”da UEL, voltado para a produção de vídeos para esta faixa etária. Responsável pela administração de site e fanpage de empresa atacadista de joias e semijoias em Londrina, fotografando e produzindo vídeos para serem postados nos mesmos. Faz parte da equipe do Grupo Hikari de Londrina , que tem como objetivo manter viva a cultura japonesa, sendo a responsável pelas filmagens, produção e edição dos vídeos do site www.hikarilondrina.com.br.

Autor

Kiyomi Nakanishi Yamada – Natural de Bebedouro, interior do Estado de São Paulo, graduada em Enfermagem pela Universidade São Paulo – USP, atuou como docente na Universidade Estadual de Londrina – UEL até se aposentar em 2010.Faz parte da equipe integrante do Projeto “Oficina de TV para a Terceira Idade” da UEL responsável pela produção de vídeos voltados para esta faixa etária; atua na comunidade como voluntária em projetos ligados à área do envelhecimento humano. Faz parte da equipe do Grupo Hikari de Londrina , que tem como objetivo manter viva a cultura japonesa, sendo a responsável pela produção e redação do site www.hikarilondrina.com.br.

 

O idioma japonês no dia a dia dos integrantes do Grupo Hikari de Londrina

Pertencemos a uma geração de crianças, jovens, adultos e idosos descendentes de imigrantes japoneses que vieram para o Brasil no período anterior à Segunda Guerra Mundial; alguns são filhos, outros netos, bisnetos e tataranetos destes imigrantes.

Ao deixarem o Japão, nossos ancestrais gradativamente foram absorvendo a cultura ocidental, porém a influência da cultura japonesa tem sido preservada em muitas famílias, principalmente quando as gerações mais novas têm contato com pessoas mais idosas que passam para os mais jovens os valores, os costumes, a culinária e, também, o idioma japonês.

No Brasil, a maior colônia japonesa fica no Estado de São Paulo e a segunda está localizada na região norte do Paraná, com destaque para a cidade de Londrina. A influência nikkei é bem marcante nesta cidade através de festivais que costumam atrair um grande público que aprecia a música, a dança, a culinária, o artesanato, a religião, possibilitando a integração das culturas oriental e ocidental.

O Grupo Hikari de Londrina foi criado em 2005 com a finalidade de divulgar a cultura japonesa com destaque para o bon odori, promover eventos para ajudar entidades carentes e também encontros para fortalecer a amizade, o trabalho em equipe e a qualidade de vida entre os seus integrantes. O nome Hikari que significa luz, brilho em japonês foi uma escolha dos primeiros integrantes quando o grupo foi formado.

São  aproximadamente 80 integrantes que  se  reúnem   para  dançar,  participar  de confraternizações  como  o  shinenkai, no  início de  ano, tandyokai  para  comemorar  os aniversariantes do trimestre e bonenkai, no final de ano e também participar na organização de eventos como o Motitsuki – Festival do Moti e o Odori Fest – Festival do bon odori.

Nos encontros de confraternização, o cardápio é servido no sistema de motiyori em que cada participante leva um prato com doces ou salgados para compartilhar com os demais presentes. Algumas pessoas costumam embrulhar os pratos com furoshiki, uma espécie de pano de prato quadrado onde as extremidades são amarradas para dar firmeza ao conteúdo. A comida é variada, não podendo faltar o nishimê, um cozido de vegetais que é servido depois que todos fazem o brinde com as palavras banzai, viva!

O Motitsuki – Festival do Moti é um evento organizado pelo grupo desde 2006 com a finalidade de preservar a tradição trazida pelos imigrantes de preparar e degustar os bolinhos feitos com o motigome – um tipo especial de arroz – e também para angariar fundos para ajudar entidades carentes como o wajunkai – casa de repouso para idosos situada na cidade de Maringá, Paraná.

O moti, conhecido como bolinho da prosperidade, é tradicionalmente consumido nas reuniões familiares no shougatsu durante as comemorações do ano novo e, também no dia a dia em receitas como o ozoni – caldo com algas, legumes e carne – e zenzai – caldo doce feito com um tipo especial de feijão, o azuki.

Outra maneira de fazer a degustação do moti consiste em aquecer o moti e depois umedecê-lo na mistura do shoyu que é o molho de soja com um pouco de açúcar. Algumas pessoas do grupo apreciam comer o moti junto com natô – um preparado à base de soja fermentada.

O destaque do Odori Fest tradicionalmente realizado em novembro na cidade costuma atrair delegações de várias cidades da região para dançar o bon odori, dança tradicional japonesa que atrai os mais idosos com as coreografias do tanko bushi, sakura ondo, shinran ondo, naniwa bushi dayo jinseiya para citar algumas, enquanto os mais jovens aguardam ansiosos o toque dos taikos, tambores japoneses, indicando a hora de começar o matsuri dance que é uma versão mais moderna do bon odori.

As pessoas dançam em círculo ao redor do yagura, uma espécie de palanque onde ficam os tocadores com os seus tambores. Na apresentação das danças costumamos vestir o happi que é uma vestimenta com uma logomarca para identificação do grupo ou o yukata, semelhante ao quimono, mais tradicional, porém mais simples de vestir e apropriado para o verão.

O local da festa é decorado com aproximadamente 1000 tyotins ou origamis que são dobraduras feitas em papel onde constam os nomes das pessoas que adquiriram os mesmos e também enfeites representando o sakura que, segundo a tradição, tem o poder de atrair bons fluidos e harmonizar o ambiente.

O momento mais aguardado da festa é o ame moti – chuva de bolinhos de arroz – quando dez mil mini-motis, bolinhos de arroz embalados individualmente, são distribuídos ao público presente simbolizando a paz, a alegria e a felicidades para todos.

Nas barracas terceiradas pela organização do evento são comercializados pratos como yakissoba – cujos ingredientes incluem carne, macarrão e legumes, o sukiyaki, com ingredientes semelhantes ao yakissoba, porém preparados com um molho diferente, o udon, que é uma sopa à base de macarrão servida no tyawan acompanhado do hashi, pauzinho de madeira que substitui os talheres, o sushi que é o bolinho de arroz enrolado com uma espécie de alga e outras iguarias da culinária oriental e também ocidental como pastéis e churrasquinhos.

Quando viajamos a lazer ou então para participar de festivais em outras cidades do Paraná ou em outros Estados costumamos levar bento, uma espécie de marmita contendo além do sushi, yakisakana, peixe grelhado, tsukemono, conservas como picles, omelete e outros ingredientes a gosto para comer durante a viagem ou nas paradas que o pessoal costuma fazer quando utiliza o ônibus ou carros como meio de transporte.

Os festivais de bon odori têm utilizado espaços públicos da cidade como praças e centros de eventos ou então são realizado nos kaikan, associações que congregam os nikkeis da comunidade. Tradicionalmente são servidos aos visitantes pratos típicos da culinária japonesa preparados pelas integrantes do fujinkai, associação de senhoras. Costumamos entregar um orei, um envelope contendo determinado valor em dinheiro aos coordenadores do evento com a finalidade de colaborar nas despesas, incluindo a refeição que nos foi oferecida.

O Hikari reúne pessoas de bem com a vida, mas existem momentos tristes como a morte de amigos, integrantes ou familiares do grupo, em que todos se solidarizam participando do velório e do sepultamento. Dependendo do vínculo familiar ou de amizade, optamos por entregar aos familiares o kooden, um envelope com dinheiro ou então enviamos uma coroa de flores seguindo o costume ocidental. A cerimônia religiosa na maioria dos casos é conduzida pelo bonsan, monge budista ou então por representantes de outras religiões orientais ou ocidentais.

A palavra mottainai tem um significado especial no grupo, não deixar comida sobrando no
prato, não deixar água da torneira escorrendo, economizar na quantidade de detergente e
assim por diante. A filosofia mottainai pode nos ajudar a entender como nos relacionamos com o meio ambiente evitando o desperdício.

É interessante observar que os participantes do grupo, como são nascidos no Brasil, muitos com formação universitária, dominam bem a língua portuguesa, mas costumam comunicar se no dia a dia misturando os dois idiomas. São comuns expressões como: aguenta firme pessoal – ganbatte ne, isso não tem jeito – shoganai ne, estou cansado – tsukareta ne, desculpe – sumimasen, como está – genki deska, vou me servir – itadakimasu.

Expressões a seguir são comuns no dia a dia dos imigrantes e descendentes no Brasil: por
favor, coloque na geladeira – geladeira no naka ni oitekudasai, vamos colocar toalha na mesa – vamos colocar mesa kake, deixei na bolsa – bolsa ni okimashita, vou para casa de ônibus – ônibus de kaerimasu, venha para o almoço – almoço ni kitekudasai.

O Grupo Hikari realiza apresentações em instituições de ensino médio e superior, em empresas e outros espaços com a finalidade de integrar-se à comunidade não nikkei, contribuindo desta forma na divulgação da cultura japonesa. Este intercâmbio possibilita compartilhar com eles valores como pontualidade, compromisso, solidariedade, ordem e limpeza do ambiente, além de despertar neles o interesse pelo idioma, pelas artes, pela culinária e esportes do povo japonês.

Somos nikkeis nascidos no Brasil, temos orgulho de ser brasileiros, mas as nossas raízes estão do outro lado do mundo, na terra do sol nascente!

© 2016 Alba Shioco Hino, Nilza Matiko Iwakura Okano, Kiyomi Nakanishi Yamada

Autor

Alba Shioco Hino

Paranaense, graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina UEL e em Pedagogia pelo Centro de Estudos Superiores de Londrina CESULON, professora aposentada da rede municipal e estadual de ensino. Bolsista do Governo Japonês Ministério de Educação e Cultura na Universidade de Hiroshima entre 1987 a 1989. Faz parte da equipe do Grupo Hikari de Londrina, que tem como objetivo manter viva a cultura japonesa, sendo a responsável pela edição das fotos do site www.hikarilondrina.com.br.

Autor

Nilza Matiko Iwakura Okano  

Natural de Arapongas, Paraná, graduada em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Londrina – UEL. Atualmente faz parte da monitoria do Projeto “Oficina de TV para a Terceira Idade”da UEL, voltado para a produção de vídeos para esta faixa etária. Responsável pela administração de site e fanpage de empresa atacadista de joias e semijoias em Londrina, fotografando e produzindo vídeos para serem postados nos mesmos. Faz parte da equipe do Grupo Hikari de Londrina , que tem como objetivo manter viva a cultura japonesa, sendo a responsável pelas filmagens, produção e edição dos vídeos do site www.hikarilondrina.com.br.

Autor
Kiyomi Nakanishi Yamada

Natural de Bebedouro, interior do Estado de São Paulo, graduada em Enfermagem pela Universidade São Paulo – USP, atuou como docente na Universidade Estadual de Londrina – UEL até se aposentar em 2010.Faz parte da equipe integrante do Projeto “Oficina de TV para a Terceira Idade” da UEL responsável pela produção de vídeos voltados para esta faixa etária; atua na comunidade como voluntária em projetos ligados à área do envelhecimento humano. Faz parte da equipe do Grupo Hikari de Londrina , que tem como objetivo manter viva a cultura japonesa, sendo a responsável pela produção e redação do site www.hikarilondrina.com.br.

                  Brilho Nikkei

      O Grupo Hikari completa 10 anos em 2015 (foto: Nilza Okano)

 

Londrina, cidade no norte do estado do Paraná, é a segunda comunidade com maior número de descendentes de japoneses do Brasil, com cerca de 30 mil nikkeis, sendo uma das maiores do mundo fora do Japão. É lá onde surgiu e atua o Grupo Hikari, que neste ano completa 10 anos.
Como o grupo foi criado

Antigos integrantes do grupo de jovens do Templo Budista Nishi Hongwanji de Londrina que estavam afastados há mais de 30 anos se mobilizaram a partir de 2003 para criar uma associação de amigos para treinar o bon odori. Esta foi uma tradição trazida pelos imigrantes, que dançavam bon odori nas cerimônias realizadas nos templos budistas para reverenciar o espírito dos antepassados.

A ideia surgiu por diversos motivos, como a ida dos imigrantes e seus descendentes para trabalhar no Japão como dekasseguis a partir dos anos 1980 e a diminuição cada vez maior de participantes nas cerimônias da igreja budista na cidade. O grupo foi idealizado por Irene e Luiz Kuromoto e criado em 2005 e, no ano seguinte, foi batizado como Grupo Hikari (“brilho, luz”, em Japonês).

Seus objetivos são: contribuir com a divulgação da cultura japonesa mantendo viva a tradição do bon odori, colaborar com entidades filantrópicas que dão amparo a idosos e crianças,  estimular a integração, o trabalho em equipe e fortalecer a amizade e a qualidade de vida dos integrantes.

Hoje são 73 participantes com diferentes profissões, estudantes, aposentados, descendentes e não descendentes de japoneses de todas as idades. Além disso, o grupo conta com cerca de 60 voluntários para as atividades administrativas, de divulgação e workshops de danças em outras cidades.

 

 
O Hikari participa da programação cultural do Festival do Japão (foto: Alba Hino)

Atividades e apresentações

Semanalmente, os integrantes participam de treinos pagos das coreografias do bon odori e matsuri dance (uma versão mais moderna dobon odori, popular entre os jovens).

Já durante o ano, o grupo promove workshops para treinar e ensinar as coreografias e se apresenta em eventos relacionados à comunidade nikkei, principalmente no Paraná e em São Paulo, onde se concentra o maior número de imigrantes e seus descendentes no Brasil.

Desde 2006, organiza em novembro o Odori Fest, seu principal evento, na sede da Associação dos Empregados da EMBRAPA, em Londrina. A decoração conta com tyotins (dobraduras de papel que são uma espécie de luminária) e flores de cerejeira, confeccionados pelos voluntários e que, segundo a tradição, atraem bons fluidos e harmoniza o ambiente.

O destaque da festa é a “chuva de moti” (ame moti), em que aproximadamente dez mil mini motis (bolinhos de arroz) embalados individualmente são lançados ao público como símbolo de paz, alegria e felicidade.

Todos os anos, o Grupo Hikari realiza o motitsuki para preservar a tradição de preparar e degustar o moti trazida ao Brasil pelos imigrantes japoneses. O arroz é cozido, em seguida batido em máquina apropriada (antigamente, usava-se o pilão) e, quando atinge a consistência adequada, são feitos os bolinhos. Essa atividade tem reunido integrantes, familiares e amigos que se revezam nas diferentes tarefas desde a produção até a venda.

                      Preparo do moti para o tradicional motitsuki (foto: Alba Hino)

 

Desde 2010, o grupo participa do Festival Paranaense de Bon Odori, promovido pela Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná. Realizada anualmente, cada edição da festa acontece em uma das cidades filiadas à entidade no Paraná.

O Hikari participa também da programação cultural do Festival do Japão em São Paulo desde 2011. Este evento, um dos maiores da América Latina, tem como objetivo divulgar a cultura japonesa e transmitir as tradições e costumes às novas gerações.

Em 2008, esteve presente nas comemorações dos 100 anos da Imigração Japonesa no Brasil e, quando há oportunidade, ministra oficinas de confecção de tyotins, utilizados na decoração dos festivais de bon odori.


Ajuda ao próximo

Em 2011, o grupo foi homenageado pela Câmara Municipal de Londrina com o Diploma de Reconhecimento Público pela relevância dos serviços prestados à comunidade. Além de realizar os próprios eventos, apoia entidades e campanhas.

Anualmente, o Hikari promove um evento beneficente, com yakissoba ou feijoada, e um bazar de roupas e utensílios seminovos para ajudar entidades carentes.

Realiza ainda doações à Associação de Amparo a Pessoas Idosas Wajun Kai, em Maringá, que acolhe gratuitamente nikkeis de todo o estado sem família e em situação de risco, e à Creche Irmãs Bethânia, em Londrina, mantida por uma entidade nipo-brasileira.

O grupo também colabora com a coleta e doação de revistas ao Projeto Leitura no Hospital no Hospital Universitário de Londrina, que disponibiliza revistas, gibis, livros infantis, entre outros, a pacientes internados e seus familiares.

Outra ação de apoio é a participação da Campanha Lacre Solidário que beneficia os pacientes portadores de câncer do Hospital Universitário. Os lacres de refrigerantes, cervejas e sucos são guardados para ser encaminhados ao hospital.

 

Integração

Fazer parte do grupo não significa apenas participar das atividades do calendário. A cada três meses, os integrantes se reúnem com a presença de familiares e amigos para comemorar os aniversários com um almoço ou jantar.

Encontros como esses fortalecem a amizade acima de tudo, mas também proporcionam muita alegria, descontração e espírito de equipe. Tudo isso contribui com o aumento da qualidade de vida de seus integrantes, seguindo o título “Grupo Hikari – Lugar de Gente Feliz”.

O Hikari procura se integrar à comunidade de não descendentes ao se apresentar em eventos culturais de escolas de Ensino Médio, universidades, empresas, congressos científicos, associações de classe e em espaços públicos, além de participar do Carnaval no Rio de Janeiro.

 

Valores japoneses e preservação da cultura

Certos valores japoneses, como pontualidade, compromisso, solidariedade, ordem e limpeza do ambiente, estão sempre presentes nas atividades em grupo. E tais admiráveis características, junto com tradições e costumes, devem ser resgatados e preservados pelas gerações mais antigas.

Assim, os nipo-descendentes são influenciados por suas raízes e pela riqueza da cultura brasileira (e o contrário também acontece), conciliando essas duas identidades, que talvez estejam na força de uma palavra: nikkei.

© 2015 Tatiana Maebuchi

bon odori Brazil Grupo Hikari Londrina Parana

Nascida na cidade de São Paulo, é brasileira descendente de japoneses de terceira geração por parte de mãe e de quarta geração por parte de pai. É jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e blogueira de viagens. Trabalhou em redação de revistas, sites e assessoria de imprensa. Fez parte da equipe de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), contribuindo para a divulgação da cultura japonesa.

Atualizado em julho de 2015

Fonte: www.discovernikkei.org/pt/journal/2015/11/27/brilho.nikkei/

 

Os comentários estão encerrados.